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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O mar serenou

só tenho nas mãos o que eu posso ter
o resto não é meu ou sou eu mesmo
misturado no invisível do ar pós Atlântida 
somado na equação quântica dos impulsos
Steiner queria Decartes lido
Kant queria queria Hume num cântico 
que operasse o inverso da sereia grega   

guarda-chuvas do self 

domingo, 21 de junho de 2015

O insone da Rua Cônego Getúlio

Se você lembrasse do que eu lembro talvez me desse um alento
Se você lembrasse mais ainda do que eu não lembro
poderia me explicar teorias que eu tenho
melhoraria minha vida enquanto acordado
Sobre dias de sol e de chuva, 
sobre temporais e ruas sem nome
saí de casa e segui pela cidade pisando 
apenas num tipo de calçamento branco, 
bloco de concreto angulado que substituía o asfalto 
saí até que ele se terminasse em rua já em terra de chão
nesse ponto parei e tornei a seguir as ruas calçadas, 
dei meia volta, mas tirei os sapatos, 
faz menos barulho, está quase amanhecendo 
tornei a seguir não sem antes comtemplar aquela noite 
escura e seu fim principiado 
subi no telhado na minha casa 
e fiquei lá da manhãzinha 
aguardando o sol levantar forte
meus pais e mães dormindo logo abaixo
equilibrando, toquei violões para os vizinhos, 
pro céu e para as árvores, acho que ninguém ouviu 
as coisas são se dizem surdas enquanto falam conosco
acordei acordado, desci do telhado e sentei ao meio-fio
passei três meses sem dizer palavra, um bom tempo parado
o mundo não me apresentava possibilidades de viver na noite, somente
me decidi pela noite como extensão insone de mim mesmo
dos meus blocos de concreto anguloso roubados
voltei minha ata insana que concorda apenas com decisões tomadas

gosto de ver a chuva porque ela é sempre a mesma
é como se estivesse vendo algo que está fora do tempo
gosto de ver hoje porque nela lembranças param de ter sentido
hoje porque nos inventamos fora do tempo 
há 10 anos porque seríamos dois eventos concorrentes
há 20 anos porque já me percebia seu fascínio 
há 30 anos porque ainda estávamos nos conhecendo
e, daqui a dez anos, quando nos trataremos como milagres

O vendedor de flores de plástico (#2)

eu sei que você desconfia de mim
não é possível comércio às três da manhã
salvo por qualquer coisa que nos desfaça 
de estar dormindo ou acordado
qualquer coisa menos essas flores de plástico 
que te ofereço a um preço e um passo cifrado
faço isso não pelo adorno, mas pelo desvio 
faço isso porque mais precisam de mim
do que eu preciso
você sabe que o que eu vendo não são flores
vendo meu trabalho de estar aqui sob a noite
não sei o que você tem usado, mas tenho, imaginado
se nesse caule se escondessem acusadas poeiras, neve
me acusam de comércio de contrastes
entidades de consumo lícitas para um lado e para o outro

O vendedor de rádios de carro

andava a noite e tinha um isqueiro 
com o qual fazia sinais indecifráveis 
códigos, gírias, rádios de carro
tudo era possível de ser passado 
o sangue frio, o silêncio inflamado 
o peso do corpo que pôs sobre o capô 
abrira a porta do carro importado 
ninguém sabia o que ele queimava 
havia uma fogueira atrás da sua casa 
talvez a fumaça enviasse comandos 
nem um santo sabia o que ele ouvia 
quando estava calado ou falando 
era uma espécie de cabala mística 
feita com objetos roubados 
era uma espécie de romaria 
com gírias e gestos calculados 
tudo tinha um propósito 
era tudo de caso pensado 

sábado, 18 de abril de 2015

Maybe Not

arm lock van gogh hegel
rock spock in turning table
just one shot the very last level
hot spot spinal shock fairy tale
maybe not

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Astrólogo II


ângulos descritos por impasse rápido de paralaxe
isso que você tem na mão pertence a um planeta
a hora e o desenho que enfeita o céu te configura
nada nunca deve ser feito sem a assistência da lua
ela te olha de volta com a mesma escura pergunta
enquanto mercúrio se encarrega de outras chaves
esperamos quem sabe venham em retas e curvas
a lua te olharia de volta referências desconhecidas
quanto ao sol: os planetas temem suas conjunções
meio céu descendente quadra e meia o céu inferior
o rigor dos planetas regendo suas casas angulares
cada planeta por cada afetado o quatro lar sagrado
e a casa sete me segue pelos ares parada parceira
e a casa dez de medo desiste e me segue no mundo

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Astrólogo I


rege o astro regente
de toda gente nascida
letra e número dividida
escrita tudo por nove
menos quanto possível
um sol quatro e sóis
se dois ou sete a lua e três
júpiter cinco mercúrio seis
vênus oito saturno marte
adiante motivo mais tarde

nome dela e da mãe
do pai dividido por doze
leão se um dois de juno
aquário três de três vezes vestal
capricórnio se quatro
sagitário e câncer
cinco e seis antes
vênus touro paládio
vulcano de oito
de libra e de áries
o nove de marte 
escorpião se for dez
virgem onze a idade
peixe vivo de doze 
febo gêmeo ninguém


just in case
marla whatching 
white moon face 

terça-feira, 31 de março de 2015

Done Heap


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Charleville I



I

Quando eu nasci
ainda decidiam-se quais dylans
se diriam seus em desolation-rows

em Charleville ainda não se sabiam sons 
nem morrisons de paris-lost-tape-odeons

pra mim um não é quase um sim 
que se esmera em esconder-se 
no escuro de um poema claro

em Charleville ninguém podia esquecer 
que eu vim (viria ser)
eu mesmo escravo

II

Quando eu nasci
cinderella seems so easy 
e órfãos se afagariam em cinquenta-tons-de-cinza

em Charleville meu moonlight drive drive-me 
kata-ton-daimona-eaytoy noutra língua

pra mim um não é quase um sim 
talvez se vir vertigens
envergarem outra história

em Charleville eu sou o meu fiel escravo 
espelho joelho e lapso
de memória

III

meu moonlight-drive drive-me

segunda-feira, 10 de março de 2014

1:16

já deve ser quase seis da manhã
mas não me adianta dizer que horas são
cada oração tem sua hora e seu lugar
se é pra antes de dormir ou pra depois de acordar
se é pra antes de dizer ou pra depois de arrepender
se é pra pedir ou pra deixar exatamente como está
eu sou um resquício do que foi um dia ensolarado
eu sou o desperdício necessário
a um fim de dia despertado pelo fim da noite (essa madrugada)
que se desgarra e não tem horas e nem nada a declarar
cumpre dizer que as horas somem e assumem um palco farto de poesia
o sol já foi embora há horas, há dias,
disfarça bem que bem me disfarço
não adiantaria me dizer o que eu tento ou que eu faço

não adiantaria me dizer no tempo ou no espaço

domingo, 12 de janeiro de 2014

o modo de realização nos corpos


a extensão, como tal, mesmo a extensão material, grosseira, é uma perfeição. o modo de realização nos corpos é, certamente, extremamente defeituoso, exatamente como nosso pensamento discursivo é um modo de reflexão extremamente defeituoso

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

BINAH

numa noite fria e nevada
na praça mais célebre de manhattan
marcel duchamp mais 2 ou 3 caras
criaram a república livre e independente de washington square

numa noite de chuva fina e tiroteio
na rua mais molhada de ouro preto
getúlio vargas com mais dois ou três desesperos
criaram a república sulista que atiraria no estudante paulista

numa primavera de 1975
no pátio ideológico onde a gente sempre brincava
duas ou três espingardas kalashnikov
provocariam a overdose do binah cabalístico da onde beberíamos

até o infinito

daquela água turva da terceira margem do rio

domingo, 8 de dezembro de 2013

SALLY NÃO PODE DANÇAR

Assim que saiu do sono Sally não sabia mais dançar
misturada que estava e ainda seria talhada de anfetamina e amnésia
há poucas horas escapara da parada integralista que ocupava
st. marks place e a praça da sé sob seus sapatos
poderia ser 1984, poderia ser 1934, poderia ser de fato
um sonho without place avec un reve deplacé
mas a sanha de Sally acenando a saudação anauê
selara uma lista de nomes conhecidos à festa que fomos
saldara um levante seletivo de ressentidos neurônios
dentre eles plínio salgado, lou reed (seu pai sagrado)
lembrança do laquê nauseante de um show da beyoncé
aspergido de perto e escorrendo do rosto
que multi-avermelhara sua camisa verde-oliva:
vai Sally, ser nazi e gauche na vida

assim que saiu desse sonho
sentia que não poderia mais dançar como antes
não poderia mais desconhecer tompkins square
dado o seu fio viciado de ariadne transformer de youtube
cedeu meth, facebook, kenneth lane, red bull, absolut
admitiu nutrir-se do que mata e poderia morrer
pelo que ampara no peito à título de zueira e símbolo
em troca de hóstia e suástica, em troca de slogan e swàstya-yoga,
em troca de um litro de logan de doze e um amor qualquer que fosse
recolheria hoje seus restos irreconciliáveis
de pessoa física e peri-espírito inquebrantável

Call-me Sally e me desacelere
porque tomei quatro comprimidos e (os) preciso
de férias.

sábado, 22 de junho de 2013

LES TREIZE SOLEILS DE LA RUE

je ne sui pas d’accord avec votre histoire
soixante-huit mai paris ma petite amie… voilà
je voudrais disparu comme la bombe et l’état
mais avec toi l'imagination prend le pouvoir

porque que a rua é quase escura presque noir
fora seu olho de tristeza alegre e escassa. passará
la barricade qui ferme la rue mais ouvre la voie
continuará fora o foro mal armado e reaça
disfarçado de estrela pesada e leve que vestiu bege
ante a câmera espetacular que guy debord concede

ao vinagre derramado

hannah arendt postando memes de outro maio
arena brega do estado ao fim de mais um danton datado
cada um do seu próprio lado, marat de vinte centavos
le soleil de la rue saint-blaise esquece que são treze
(e treze é galo)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O corpo infenso


O corpo infenso a qualquer propósito hodierna-
mente além do horizontal das pernas sente que
a cama caberia aquém do infinito, mas só deste

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Re intervenções


RE INTERVENÇÕES

1
nesse muro há duas cores
a que você me olha
e a do meu olho

2
nesse mundo há dois acordos
o que você acorda
e o que eu escolho

3
nesse fundo há dois poços
o escuro que dura
e o que brilha a ouro

4
nesse fosso há duas flores
o lírio que arrisca
e o fundo que ecoa

5
nesse corpo há duas dores
a que o osso disfarça
e a que a alma rechaça

6
nesse retrato há dois tratos
o que eu finjo que faço
e o que faço pouco caso

domingo, 26 de fevereiro de 2012

double fantasy



a espiral que a gente entra é blindada por uma nuvem de chumbo pesada
se irradia dia é de noite fantasma se sombra irradia é o brilho da arma
que nos faz dar esse tiro no escuro sua luz é barulho eu escuto
o silêncio de grito e de luto a fumaça da bala: m. d. chapman
vem cá fazer o som, john vem cá fazer o som, john
vem cá fazer o som, john vem cá fazer o som, john
estrela leva pra london riff mama-go-home
les paul gibson

a desculpa do covarde é espelho faz amar o que não é verdadeiro
apanhador em campo santo e centeio o preço é o meio e o meio é o fim
nunca mais vou acreditar no que leio nunca mais vou acordar desse jeito
(vem cá fazer o som, john) eu tenho tudo menos medo

eu tenho tudo menos medo